Nunca se apaixone por uma coisa selvagem, Sr. Bell – Holly aconselhou-lhe. – E foi esse o erro de Doc. Ele estava sempre abrigando coisas selvagens em casa. Um gavião com a asa ferida. Uma vez um puma crescido com a pata quebrada. Mas você não pode entregar o coração a coisas selvagens: quanto mais você dá, mais fortes ficam. Até que ficam bastante fortes para correr para o mato. Ou voar para uma árvore. Então uma árvore maior. Então o céu. É assim que se termina, Sr. Bell. Se a gente se deixa amar uma coisa selvagem. Acaba-se olhando para o céu, com os olhos cheios de saudades… — Truman Capote - Histórias Maravilhosas.
“28/05/2012 - 11:18
“26/05/2012 - 07:11
Hamlet: Ser ou não ser… Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer, dormir, mais nada, e dizer que por esse sono pomos termo aos sofrimentos do coração e ás mil dores legadas pela natureza á nossa carne mortal; e será esse o resultado que mais devamos ambicionar? Morrer, dormir, dormir, sonhar talvez; terrivel perplexidade. Sabemos nós porventura que sonhos teremos, com o sono da morte, depois de expulsarmos de nós uma existência agitada? E não deverei eu refletir? É este pensamento que torna tão longa a vida do infeliz! É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte — terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou — que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e fazer-lhes perder até o nome de ação! — Shakespeare - Hamlet.
“26/05/2012 - 07:08
Caro amigo, é com lágrimas lúgubres que escrevo esta carta. Quiçá não compreendas, porém a morte me aguarda no fim do quarteirão na ponta direita da rua. Um narrador defunto? Deva-se a pergunta, logo eu mesmo lhe responda: Talvez a morte, de muitas vezes já apareceu ao meu encontro, hoje a vejo como uma amiga, cuja liberdade da conversa é boa, e eu não a de negar, o silencio é bom. Deve ser assim a morte: o silencio. Talvez interprete mal a palavra cuja me intrometo a usar, digo; o silencio em seus aspectos é um bom companheiro para pensar, usufruir um bom livro… E cá meu caro, em lembrar de livro, lembrei-me daquele seu livro cuja mostrou-me no ônibus, não lembro o nome, tampouco o que se referia. Se não me engano era um livro de auto-ajuda ou algo filosófico na qual lhe tirou aquele interesse de lê-lo. Achei interessante a sua motivação, de querer usufruir do gozo que lhe trazia ao ler cada palavra, que mesmo tão curtas elas, trazia um significado que tornava-o único. Livros são bons, e se caso exista alguém que discorde da minha afirmação, por favor, prove-me o contrário. É que está tudo desabando meu caro amigo, as pessoas precisam de uma pequena dose de realismo parta enxergarem o que estão transformando este país. Cadê os leitores? Onde estão as pessoas nas feiras de livros e nas bibliotecas? Enquanto mais o tempo passa, são menos as pessoas que param um pouco do tempo para poderem pegar um livro e fazer este país andar mais um pouco pra frente, entretanto, são poucos os ouvidos que escutam as palavras. Por isso e outros motivos que prefiro o silencio, as pessoas escutam. Porém, um pouco de barulho é sempre bom na nossa vida; logo desperdicei minha vida toda no silencio, na calma, na paciência… E é assim que eu parto, com a curiosidade de poder ver as modificações literários que um futuro distante poderá trazer. Quiçá eu vá ao encontro, cuja igreja dá nome de reino dos céus, onde as almas descansam em paz. Porém prefiro acreditar que seja levado em um lugar onde ninguém, jamais pensou que existissem, um lugar diferente, que escritor nenhum conseguiu imaginar em descrever tal lugar. E assim eu vou meu amigo, e por favor, não chore, não desperdices tuas lágrimas com as palavras que mal sei deduzir, nos encontraremos futuramente, eu sei disso, estarei a lhe esperar sorrindo, seja lá onde eu estiver… — Pedro Igor F. Carta para um amigo
“26/05/2012 - 07:01
Você precisa fazer alguma coisa, as pessoas dizem. Qualquer coisa, por favor, as pessoas dizem. O que não dá é pra ficar assim. Nem que seja piorar, nem que seja enlouquecer. Olho o rosto das pessoas. Tem os ossos, dai tem a parte de dentro. Tem os olhos e tem o fundo dos olhos. Da boca saem esses sons. De repente alguém encosta em mim. Pra perguntar com o quentinho da mão se estou ouvindo e entendendo. Sorrio e torço pra pessoa ir embora. Torço pra alguém chegar, só pra torcer bem pouquinho por algo. Mas dai a pessoa começa a falar e torço pra pessoa ir embora. Não tem o que fazer, não tem o que dizer, não tem o que sentir. Sou uma ferida fechada. Sou uma hemorragia estancada. Tenho medo de deixar sair uma letra ou um som e, de repente, desmoronar.Quando toca uma música bonita, minha ironia assovia mais alto. Um assovio sem melodia. Um assovio mecânico mas cuidadoso, como tomar banho ou colocar meias. Outro dia tentei chorar. Outro dia tentei abraçar meu travesseiro. Não acontece nada. Eu não consigo sofrer porque sofrer seria menos do que isso que sinto. Tentei falar. Convidei uma amiga pra jantar e tentei falar. Fiquei rouca, enjoada, até que a voz foi embora. Tentei aceitar o abraço da minha amiga, mas minha mão não conseguiu tocar nas costas dela. Não consigo ficar triste porque ficar triste é menos do que eu estou. Não consigo aceitar nenhum tipo de amor porque nenhum tipo de amor me parece do tamanho do buraco que eu me tornei. Se alguém me abraçar ou me der as mãos, vai cair solitário do outro lado de mim.Se eu pudesse usar uma metáfora, diria que abriram a janela do meu peito e tudo de bom saiu voando. Eu carrego só uma jaula suja e escura agora. Se eu pudesse usar uma metáfora, eu diria que tiraram as rodinhas dos meus pés. Eu deslizava pelo mundo. Era macio existir. Agora eu piso seco no chão, como um robô que invadiu um planeta que já foi habitado por humanos. Mas eu não posso usar metáforas porque seria drama, seria dor, seria amor, seria poesia, seria uma tentativa de fazer algo. E tudo isso seria menos.Não briguei mais por você, porque ter você seria muito menos do que ter você. Não te liguei mais, porque ouvir sua voz nunca mais será como ouvir a sua voz. Não te escrevo porque nada mais tem o tamanho do que eu quero dizer. Nenhum sentimento chega perto do sentimento. Nenhum ódio ou saudade ou desespero é do tamanho do que eu sinto e que não tem nome. Não sei o nome porque isso que eu sinto agora chegou antes de eu saber o que é. Acabou antes do verbo. Ficou tudo no passado antes de ser qualquer coisa. Forço um pouco e penso que o nome é morte. Me sinto morta. Sinto o mundo morto. Mas se forço um pouco mais, tentando escrever o mais verdadeiramente possível, percebo que mesmo morte é muito pouco. Eu sem nome você. Eu sem nome nós. Eu sem nome o tempo todo. Eu sem nome profundamente. Eu sem nome pra sempre. — Sem nome, Tati Bernardi.
“26/05/2012 - 06:53
Procuro as verdades no meio das mentiras da minha cidade. Leio os jornais de hoje e comparo-os com os de duas semanas atrás. Vejo as mentiras lançadas na cara dura e finjo não me preocupar. Na cafeteria escondo-me atrás de um chapéu, um casaco de couro e torno a tomar o meu café. Por mais que eu tente fechar os meus ouvidos, ouço as mentiras ditas pelas pessoas que ali estão, por menos que eu tente demonstrar, a minha vontade era dali me levantar. Procuro as verdades em um meio a multidão espalhada na praça centrar. Mas quando chega o fim do dia, ligo a minha televisão velha e vejo notícias reajustadas em jornais novamente. As mentiras correm soltas por avenidas e mais avenidas sem uma coleira para controlaras. Por onde andam as verdades? Será que se escondem nas ruelas da minha pequena cidade? — Lucas Guerrero, Mentiras.
“26/05/2012 - 06:44
Entretanto, nem por isso sou menos capaz de definir essa sensação, de analisá-la, ou mesmo de ter dela uma percepção integral. Reconheci-a, repito-o, algumas vezes no aspecto duma vinha rapidamente crescida, na contemplação de uma falena, duma borboleta, duma crisálida, duma corrente de água precipitosa. Senti-a no oceano, na queda dum meteoro. Senti-a nos olhares de pessoas extraordinariamente velhas. E há uma ou duas estrelas no céu (uma especialmente, uma estrela de sexta grandeza dupla e mutável, que se encontra perto da grande estrela da Lira) que, vistas pelo telescópio, me deram aquela sensação. Sentindo-me invadido por ela ao ouvir certos sons de instrumentos de corda e, não poucas vezes, ao ler certos trechos de livros. Entre numerosos outros exemplos, lembro-me de alguma coisa num de Joseph GlanvilI que (talvez simplesmente por causa de sua singularidade, quem sabe lá?) jamais deixou de inspirar-me a mesma sensação: “E ali dentro está a vontade que não morre. Quem conhece os mistérios da vontade, bem como seu vigor? Porque Deus é apenas uma grande vontade, penetrando todas as coisas pela qualidade de sua aplicação. O homem não se submete aos anjos nem se rende inteiramente à morte, a não ser pela fraqueza de débil vontade. — Edgar Allan Poe
Sentia-me contente por não estar apaixonada, por não estar contente com o mundo. Gosto de estar em desacordo com tudo.